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Luta contra o refrigerante

Posted on: 08/10/2009


Richard Bernstein
Em Nova York

fat

 

Dependendo do vagão de metrô em que o cidadão se encontrar em Nova York nos dias de hoje, ele poderá ver ou uma propaganda de advertência, dizendo que refrigerantes são perigosos para a sua saúde, ou uma outra propaganda sardônica e de conteúdo oposto, denunciando que a campanha do governo contra os refrigerantes ameaça as suas liberdades básicas. “Você está despejando peso?”, diz a primeira propaganda, que é patrocinada pelo Departamento de Saúde da prefeitura da cidade, e mostra um líquido avermelhado caindo em um copo, e congelando-se em um agregado feio de gordura. “Reduza o consumo de refrigerante e outras bebidas açucaradas”, diz a propaganda. “Prefira água, seltzer ou leite desnatado”.

Existe o temor generalizado de que as bebidas adoçadas sejam a causa de um grande problema de saúde pública em uma sociedade cada vez mais obesa e gastronomicamente auto-indulgente. Isso está fazendo com que autoridades governamentais e organizações privadas, como a Associação Médica Norte-Americana, recomendem a cobrança de impostos novos ou mais elevados sobre os refrigerantes como forma de fazer com que a população reduza o consumo de açúcar.

“Não há dúvida de que os nossos filhos bebem refrigerante demais”, declarou o presidente Barack Obama em um discurso recente e, ao que parece, nunca foram proferidas palavras tão verdadeiras.

Mas aí entra em cena o Centro de Liberdade do Consumidor, um grupo financiado pela indústria de alimentos e bebidas, que despeja milhões de dólares em contra-propagandas que não argumentam, como a indústria do tabaco costumava fazer, que os seus produtos não são tão ruins quanto diz o governo. Em vez disso, o argumento usado é o repúdio ao governo interventor, em uma tentativa de capitalizar o temor de um controle governamental cada vez maior e de uma erosão da responsabilidade e da liberdade individual.
sorvete
“Big Apple ou Big Brother?” (Big Apple é um apelido da cidade de Nova York), questiona uma das propagandas, sugerindo que o “1984” de George Orwell está em ação sobre nós. “Você é estúpido demais para tomar decisões pessoais a respeito de alimentos e bebidas”, diz um outro, no qual as palavras são compostas parcialmente de fotos de guloseimas como donuts e casquinhas de sorvete.

“É a sua comida”, conclui esta segunda propaganda, com uma espécie de apelo libertário. “É a sua bebida. É a sua liberdade”.

Esta é uma batalha bem norte-americana. Uma polêmica sobre os refrigerantes e a suposta necessidade de cobrar impostos sobre esse produto. E também uma polêmica sobre a iniciativa do governo de gastar dinheiro pedindo às pessoas que sejam um pouco mais razoáveis. Da mesma forma que ocorre com a discussão em torno da reforma do sistema de saúde, esta polêmica diz respeito ao papel do governo. Os oponentes da ação governamental exploram o medo sempre presente de uma espécie de ditadura das repartições civis, na qual nós seríamos protegidos contra nós mesmo, não importando se concordássemos ou não com isso.

Mas, antes de mais nada, façamos uma pergunta óbvia, tendo em vista que há uma epidemia de obesidade nos Estados Unidos, que, segundo o Centro para a Ciência e o Interesse Público, custa cerca de US$ 147 bilhões por ano em despesas médicas, sendo que a metade dessa cifra diz respeito a planos geridos pelo governo, como o Medicare e o Medicaid. Por que fazer objeção a um programa para a redução do consumo de bebidas açucaradas?

“Há muitos motivos”, disse em uma entrevista por telefone J. Justin Wilson, analista do Centro de Liberdade do Consumidor. “Existem razões ideológicas, razões científicas e razões políticas. Sob o ponto de vista ideológico, eu simplesmente não acho que um imposto deva ser um instrumento de engenharia social, para modificar o comportamento da população. As pessoas fazem um paralelo com o tabaco, mas há uma enorme diferença entre as duas coisas. Existe um vínculo inegável entre o tabaco e doenças graves. O termo refrigerante diz respeito a uma gama de produtos que são usados em excesso por certas pessoas, mas não há nada de errado com os refrigerantes em si”, argumenta Wilson.

A seguir, falando sobre a parte referente a políticas públicas, Wilson continua a afirmar que uma companha governamental contra os refrigerantes, e especialmente a imposição de impostos sobre eles, não ajudará em nada.

“Não existe a menor evidência de que isso funcionará”, disse ele. “Todos os estudos revelam que tal iniciativa não terá nenhum impacto sobre os índices de obesidade”.

Este é talvez o argumento mais forte de Wilson, e ele cita vários estudos para tentar ilustrar a sua argumentação. No entanto, nem todas as declarações de membros do Centro de Liberdade do Consumidor são tão razoáveis. No YouTube eu vi o comentarista de direita da Fox News, Glenn Beck, entrevistar David Martosko, diretor de pesquisa do Centro de Liberdade do Consumidor, e os dois revezaram-se em atacar Obama e os outros tolos em Washington que, segundo eles, acabariam com as nossas liberdades.

“Este é um sujeito que deseja, de forma sem precedentes, controlar aquilo que você faz, a forma como se alimenta, e aquilo que dirige – e eu estou falando sobre o presidente, que deseja ter controle sobre aquilo que os médicos veem”, atacou Martosko.

Martosko nutre uma raiva especial contra Cass Sunstein, o professor de direito da Universidade Harvard que foi nomeado por Obama para o cargo de chefe de informação e questões regulatórias e que, segundo Martosko, possui uma agenda secreta no sentido de usar leis ambientais para prejudicar os criadores de frangos e suínos.

“O senhor Sunstein já decidiu que você e eu somos basicamente animais, somos basicamente pedaços de carne, de forma que o governo deve basicamente dizer a você o que fazer”, disse Martosko a Beck.

Uau! Ao que parece, a partir de pequenas coisas como impostos sobre refrigerantes açucarados, falta só um pequeno passo para o controle total por parte do governo de todos os aspectos da nossa vida.
ditadura
Enquanto isso, Richard Carmona, o chefe do sistema de saúde pública dos Estados Unidos (Surgeon General), afirma que a epidemia de obesidade é “a maior ameaça atual à saúde pública”, que “mata mais norte-americanos do que a Aids, o câncer e os acidentes combinados”.

De acordo com um artigo recentemente publicado no periódico “New England Journal of Medicine”, o consumo per capita de bebidas calóricas dobrou nos Estados Unidos entre 1977 e 2002. Além do mais, segundo o artigo, há uma correlação direta entre esse fato, a epidemia de obesidade e os índices crescentes de diabetes entre crianças.

Será que a imposição de um imposto sobre os refrigerantes seria uma medida efetiva? Wilson pode estar certo ao afirmar que, a menos que o imposto seja tão elevado que os refrigerantes açucarados sejam efetivamente banidos, a tarifação não funcionará. Além do mais, seja a medida efetiva ou não, há um certo sentido na argumentação de que uma penalidade imposta pelo governo sobre a Coca-Cola e a Mountain Dew representaria uma intrusão paternalista.

É verdade que parece injusto – quando os refrigerantes são mais taxados do que outros alimentos industrialmente preparados – fazer com que pessoas responsáveis e saudáveis paguem mais pela Coca-Cola porque outras pessoas bebem este refrigerante em excesso. Mas a propaganda no metrô que faz uma alusão ao aumento de peso não é um imposto; ela é apenas um bom conselho.

Via: Uol jornais / Tradução: Uol

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